começo por dizer que gostei. já vi faz tempo mas demoro sempre a processar . é uma obra muito íntima. cada um de nós teve um caso com ela. é um amante antigo que visitamos com regularidade.

não sou crítica de cinema, apenas espectadora,  e enquanto tal impressionaram-me os telões do João Queiroz pela sua beleza. não me fez lembrar o L’anglaise et le Duc do Rohmer de forma nenhuma. o efeito em mim é outro. enquanto um nos leva para a rua este leva-nos para casa. leva-me ao salão onde imagino o que leio fazendo-me viajar como só se faz no sofá. o João Botelho contou-me a história outra vez. deu-me mais uma forma de acolher Os Maias na estante cerebral que reservo para o Eça. as interpretações não me deslumbraram. são teatrais para quem ama um certo bom senso, mas são sem dúvida dramáticas e excessivas como o Eça escreveu. ou melhor, como eu li o que foi escrito. parece-me diferente.

voltando aos Maias e a suposta similaridade com o Portugal séc. XXI. acho um pouco preguiçosa essa ideia que estamos na mesma. é de quem não se dá ao trabalho de pensar. não acho que estejamos iguais nem que vivamos uma situação semelhante. nem Portugal nem a amada França do Salcede ou a Europa que na altura era ainda tão estrangeira.

estamos iguais na medida em que permanecemos humanos e como tal continuamos a padecer das fraquezas inerentes à espécie. sim, somos falsos, adúlteros, corruptos, deslumbrados, etc. também somos apaixonados, poetas, trágicos, audazes…somos todos, portugueses ou não. exprimir desdém e troçar do que é nacional não é exclusividade lusitana. ninguém brinca melhor consigo próprio que um inglês. e ainda bem, que seria do mundo sem os Monty Python.

o filme vale por si. quem nunca leu Os Maias (porque os há) poderá ver o filme, acompanhar a história e chegar ao fim satisfeito. fora de Portugal não será um êxito de bilheteira com excepção provavelmente do Brasil porque é indiscutivelmente um filme europeu, com uma linguagem e estética que não são de degustação rápida.

a provar esta minha ideia veio uma jovem de 16 anos (+/-) que à saída exclama “esta foi a única parte do livro que li” referindo-se ao trágico desfecho da paixão incestuosa. que pena menina, nem sabe o que perdeu!

a. fonseca

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