primas fonseca e silvasaíamos a esta hora. poucos passos separam a Carlos da Maia da Coelho da Rocha e era lá que se passava o Natal. o  tio C era a personagem aglutinadora da família após a morte da avó M. íamos a pé. carregados de sacos com  presentes e o arroz doce da minha mãe. não havia melhor que o dela.

à chegada largava os agasalhos e corria para o quarto da G, onde já se encontrava também a C que morando no prédio ao lado chegava primeiro.  a A esperava sozinha. era um mistério para mim que optasse pela solidão, mas eu ainda não tinha  12 anos.

a entrada na sala de jantar estava vedada. espreitávamos pela porta. era uma sala grande com uma grande mesa, coberta com uma toalha adamascada cor de pérola. white & blue royal worcester repletas de fritos natalícios, frutos secos, frutos cristalizados, bolo rei, bolo inglês, e broas, muitas e variadas, doces e salgadas. os queijos e bolachinhas. ao fundo a marquise, envidraçada aos quadradinhos, estava repleta de embrulhos coloridos com fitas brilhantes. atrás a árvore gigante, pelo menos assim me parecia na altura, cheia de bolas e fitas numa explosão de luz e cor avassaladora. na altura certa algum adulto nos convidaria a entrar.

os últimos a chegar eram os que viviam fora do bairro, os da Estrela. com eles vinham a S e a T. esta chegada desencadeava acontecimentos. emoções extravasavam-se. a A saía do quarto e ostentava com superioridade o facto de ser a dona da casa e ser todo um ano mais velha que a T. era um choque de titãs. havia amuos, palavras sussurradas, insultos, por vezes acabavam à dentada, costume que iniciaram com tenra idade. haviam de se odiar toda a vida.

ninguém gostava particularmente da S mas na altura era inofensiva e de certa forma éramos solidarias. ninguém merecia ser irmã da T. para nós era uma festa. estávamos juntas, tínhamos doces e presentes. podíamos comer e beber sem restrições impostas em nome da saúde, e os dentes só se lavavam ao deitar. até ao jantar tentávamos adivinhar os presentes, discutíamos probabilidades, partilhávamos inside information (havia sempre algum adulto que se descaía), nem dávamos pelas horas passarem.

ás 20h em ponto começava o jantar. o fiel amigo rodeado de batatas e couves. as couves eram um problema na altura. mas a posta alta e suculenta até sabia bem e pela qualidade fazemos qualquer sacrifício. regada com azeite, polvilhada com pimenta branca que provocava espirros e risos e a acompanhar Laranjina C, um primeiro presente. seguiam-se o arroz doce, as farófias, o leite creme queimado, a sericaia, as fatias douradas, a lampreia de ovos…saímos da mesa e íamos adorar o relógio. olhávamos intensamente na esperança que a nossa vontade fizesse o raio dos ponteiros rodarem mais depressa. chegámos a tentar adiantá-lo mas os adultos não estavam tão entorpecidos pelo vinho como imaginámos. não houve penalizações, era Natal.

à meia-noite começava a grande festa. o tio C distribuía os presentes. era um festival. no fim estávamos rodeados de papel rasgado e abraçadas às nossas bonecas novas e ignorando as roupas novas que teríamos de estrear no dia seguinte, quando fossemos beber café à Tentadora. os adultos comiam e bebiam noite dentro. adormecíamos encostadas a um deles, envolvidas pelas gargalhadas, pelo fumo dos cigarros, tilintar dos copos.

não me lembro como voltava para casa. talvez ao colo do pai. amanheci na minha cama abraçada  à Samantha, a minha boneca nova

a. fonseca

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